Memórias da História

quarta-feira, 11 de maio de 2011 guitarras: 2
Esta terça-feira foi, sem dúvida, um dos dias mais importantes para mim. A nossa escola recebeu a visita de uma pessoa que eu considero um dos maiores Heróis do nosso país, Francisco Fanhais.
Foi à nossa escola contar-nos algumas das suas histórias sobre a sua vida na época da Ditadura e cantar-nos algumas quadras portuguesas. Contou-nos muitas histórias interessantes sobre como era a vida nessa altura, contou-nos sobre as alturas em que as pessoas não podiam falar das suas opiniões sobre o estado do país, como já todos sabemos, havia sempre um agente da PIDE ali à espreita, era só ele ouvir um pouco da conversa para uma pessoa ir para a prisão.
Contou-nos sobre uma altura em que fora com uns amigos a casa de uma senhora, se me lembro bem, o marido estava na prisão de Peniche, eles levaram uns brinquedos para as crianças e falaram com a mulher, que dissera que era costureira e que a filha estava na quarta classe. Eles perguntaram à mulher se a filha ia continuar os estudos
após acabar a primária, ela respondeu que mal tinha dinheiro para alimentar, vestir e dar banho aos filhos, que não havia hipótese de ela continuar os estudos, que após o quarto ano, ia trabalhar para ajudar a sustentar a família. E a menina, que todos julgavam distraída a brincar no quarto gritou "Mas eu sou inteligente". O sr. Fanhais disse que nunca mais se esqueceu destas palavras, que nunca esperara ver uma criança a protestar contra a Ditadura por não poder continuar os estudos. Podemos todos tirar uma lição de vida desta história, há tantas crianças no mundo que não dão uma para a escola, que tiveram a sorte de nascer nesta época e poderem estudar e não o fazem, só porque é difícil, ou aborrecido, acham que é mais fácil desistir , que há por aí fora trabalho à espera deles.
Contou-nos outra história que, de certa maneira, conta como foi possível a Revolução em Portugal. O sr. Fanhais estava em França, gravou com mais três amigos, um deles era o Grande Zeca Afonso, o Hino da Liberdade, "Grândola, Vila Morena". Lembro-me que da primeira vez que ouvi a música, aquele tch... tch... tch... chamou-me a atenção no princípio da música, perguntei-me logo que som era aquele, essa foi uma das perguntas que o sr. Fanhais respondeu. Eles gravaram esse som às três da manhã, nas ruas de França, com os pés. Mas porquê às três da manhã? Resposta simples: havia demasiado barulho durante o dia, só havia carros a passar, portanto tiveram que fazer isso na altura mais silenciosa possível. Um tempo mais tarde, após a música já estar gravada, ligaram ao sr. Fanhais a dizer que esta a ocorrer uma Revolução em Portugal. Ao princípio, achou que não era o que parecia, mas quando ligou o rádio e ouviu o "Grândola, Vila Morena" é que viu mesmo que o povo revoltara-se finalmente. Poucos dias depois depois, o sr. Fanhais e um amigo seu voltaram
para Portugal de comboio, quando pararam na estação o amigo dele foi sussurrar a um polícia que estava ali a rondar com a espingarda na mão: "Onde é que está a PIDE?" E o homem respondeu: "Ó amigo, pode levantar a voz, isto agora é um país livre". Foi sem dúvida uma frase que me entrou logo no ouvido, foi simplesmente linda.
E foi isto das magnificas histórias que nos foram contadas, ainda não sei como consegui decorá-las, se fosse matéria da escola, metade tinha entrado por um ouvido e saído pelo outro :-)
Outra coisa curioso é que o sr. Francisco Fanhais já foi professor de Educação Musical, o que justificou logo o jeito que tinha para tocar guitarra. O seu estilo de música lembrava-me o Rouxinol Faduncho, não cantava fado, mas fazia o público cantar com ele, bater palmas para dar ritmo, etc. Como nunca fui bom para decorar letras de músicas, só me lembro duas quadras alentejanas que cantámos todos juntos várias vezes, quase de certeza que conhecem:

Tem coisas Tio Manel, tem coisas
Tem coisas más de aturar
Mandou-me fazer uma açorda
E agora não ma quer pagar

E agora não ma quer pagar
E agora não ma quer comer
Tem coisas Tio Manel, tem coisas
Tem coisas más de entender

No final, o professor Jaime espalhou por todos, papéis com a letra da "Grândola, Vila Morena" e cantámos todos juntos.
E tudo correu assim, acho que foi um momento muito divertido, pena que só tenha durado hora e meia, bem podia ter lá ficado até às tantas, mas foi bom à mesma, porém, safamos de duas aulas, consegui um autógrafo e tirámos uma foto :-D
A única coisa que não correu bem, foi algo que chateou bastante o Caracol, muitas das pessoas que lá estavam, incluindo algumas da nossa turma, não tomaram atenção nenhuma ao que o sr. Fanhais disse, só conversavam e riam. E também reparei de outra maneira que só estava ali gente desinteressada, para além de mim e do Caracol, os únicos alunos que se puseram na bicha para os autógrafos foram o Rúben e o Crispim, do curso de Fotografia, mas os professores puseram-se quase todos na bicha connosco.
Para além disso, acho que não há mais nada para contar, acho que já escrevi um testamento suficientemente longo para terem uma ideia quase exacta de como foi este grande dia de escola, mas era fixe se ele lá voltasse, aquela escola precisa, às vezes, de um pouco de conhecimento, de boa música e de bom entretenimento.


A minha foto com Francisco Fanhais

guitarras: 2

Patty :

25 de Abril, este tema também um dos meus temas preferidos.
É sempre bom ouvir estas historias vindas das pessoas que as viveram de perto.
Bjocas e adorei ler o teu texto

Patty :

Já tinha comentado o teu post, mas infelizmente não ficou aqui, acho que o blogger este com problemas.
Em relação ao teu post, adorei lê-lo, gosto de ver como te interessas por estes temas. Tu és realmente um rapaz especial ;), tu interessaste pelo 25 de Abril, lês Saramago e entendes o que ele escreve, e mais leste o Maias até ao fim e adoraste, és o meu herói ;)
Bjocas grandes

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